A edição 2009 da Campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres começou nesta sexta-feira (20), em todo o país, com o objetivo de sensibilizar a sociedade e o Estado para o enfrentamento do problema e, conseqüentemente, o desenvolvimento de novas medidas e políticas públicas de defesa integral dos direitos das mulheres. A campanha, que vai até 10 de dezembro, é iniciada no Dia Nacional da Consciência Negra como forma de destacar a dupla discriminação por que passam as mulheres negras brasileiras.
Este ano, o tema da Campanha 16 Dias de Ativismo é focado nas chamadas violências “sutis”, ou seja, atos de violência moral, psicológica e de controle econômico e de sociabilidade, entre outros, considerados “normais” ou “naturais” por estarem arraigados na cultura e porque, muitas vezes, não são direta ou claramente percebidos como violência pela sociedade e pelas próprias mulheres vitimadas. Com o slogan “Uma vida sem violência é um direito das mulheres. Comprometa-se. Tome uma atitude. Exija seus direitos”, a campanha aborda a responsabilidade de toda brasileira e todo brasileiro no reconhecimento, na prevenção e na erradicação de todas as formas de violência contra as mulheres.
A violência contra as mulheres é um fenômeno que atinge pelo menos uma em cada três mulheres, adolescentes e meninas no mundo, segundo dados do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem/2009). De acordo com pesquisa promovida em 2002, pela Fundação Perseu Abramo, no Brasil, a cada 15 segundos uma mulher é espancada pelo marido ou companheiro.
A diretora-executiva da AGENDE e coordenadora nacional da Campanha, Marlene Libardoni, observa que a violência sofrida pelas mulheres – seja ela “sutil” ou direta – resulta em danos inestimáveis às mulheres vitimadas. “A dor não é apenas pela violência ao corpo, pela dor física. É uma dor de alma, de espírito, de agressão à dignidade pelos constrangimentos causados pelo agressor”, afirma.
MULHERES NEGRAS – O cenário de discriminação e violência contra as mulheres negras brasileiras é ainda mais impactante. Na área da saúde, por exemplo, pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Ministério da Saúde, em parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro – realizada entre os meses de julho de 1999 e março de 2001 com 10 mil mulheres entrevistadas imediatamente após o parto – revelou que 11,1% das negras não receberam anestésicos. O percentual é maior que o dobro do índice aferido para as mulheres brancas que não foram anestesiadas (5,1%). A diferença foi verificada em hospitais públicos e privados, inclusive quando brancas e negras pertenciam à mesma classe social e tinham o mesmo nível de escolaridade.
De acordo com o dossiê “Aborto: Mortes Preveníveis e Evitáveis”, produzido em 2005 pela Rede Feminista de Saúde – que analisou as mortes por aborto relacionadas à raça/etnia em todo o país, no período de 1999 a 2002 – a Razão de Mortalidade Materna (RMM) por aborto, para mulheres negras (pardas e pretas) foi de 11,28/100 mil nascidos vivos; isto é, duas vezes maior que a RMM para as mulheres brancas (de 5,42/100 mil nascidos vivos).
“Dados como esses demonstram claramente que as mulheres negras brasileiras, além da discriminação que sofrem no mercado de trabalho e em outros segmentos sociais, são ainda mais vitimadas que as brancas porque, inclusive, estão expostas a um maior risco de morte”, destaca Marlene Libardoni. “Na área da saúde, as negras também sofrem de ‘violência institucional’, uma vez que recebem, em relação às brancas, menos atendimento, atenção e acolhimento dignos e respeitosos por parte de agentes públicos”, acrescenta a diretora-executiva da AGENDE, que desde 2003 coordena, no Brasil, a Campanha 16 Dias pelo Fim da Violência contra as Mulheres.
DATAS-MARCO DA CAMPANHA
20 de novembro (início da campanha no Brasil) – Dia Nacional da Consciência Negra
25 de Novembro (início da campanha em âmbito internacional) – Dia Internacional da Não-Violência contra as Mulheres
1º de dezembro – Dia Mundial de Luta Contra a Aids
6 de dezembro – Dia Nacional de Luta dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres / Massacre de Mulheres de Montreal (Canadá) / Campanha do Laço Branco
10 de dezembro – Dia Internacional dos Direitos Humanos
Ação no Rio de Janeiro deve parar Avenida Atlântica
Neste domingo (22), às 14h, mulheres e homens do Rio de Janeiro (RJ) pretendem “parar” a Avenida Atlântica pelo fim de todos os tipos de violência contras as mulheres, principalmente aqueles considerados “sutis”, foco da Campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres.
Movimentos sociais, governo e sociedade civil participam da mobilização, promovida pela BR Distribuidora, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) da Presidência da República e a ONG Agende Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento – AGENDE, que coordena, no Brasil, a Campanha 16 Dias de Ativismo, iniciada em todo o país nesta sexta-feira (20) – Dia Nacional da Consciência Negra – até o dia 10 de dezembro.
Serviço: ação pelo fim da violência contras as mulheres
Data: 22/11/2009
Horário: 14h
Local: Posto Hilário de Gouveia Ltda – Avenida Atlântica (esquina com Hilário de Gouveia), S/N, Copacabana, Rio de Janeiro (RJ)
Autoridades confirmadas: Nilcéa Freire, ministra da Secretaria Especial de Políticas paras as Mulheres; Marlene Libardoni, diretora-executiva da ONG Agende e coordenadora nacional da Campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, e os presidentes da Petrobrás, Sergio Gabrielli de Azevedo, e da BR Distribuidora, José Lima de Andrade Neto.
Mais informações: ONG Agende – (61) 3273-3551 / 8164-5437 (Renatha Melo) / 9982-6694 (Fabiana Bandeira) / 9655-1829 (Agende) e 16diascomunica@agende.org.br
ESTIGMA E PRECONCEITO – Outra importante campanha contra o estigma e o preconceito no Brasil é promovida, desde o dia 16 deste mês, pela Organização das Nações Unidas (ONU), parceira da AGENDE na Campanha 16 Dias de Ativismo por meio do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM), o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS).
Com o tema “Igual a Você”, a mobilização da ONU surge como uma iniciativa contra as violações de direitos humanos e desigualdades, especialmente nas áreas da saúde, educação, emprego, segurança e convivência. Trata-se de uma oportunidade de sensibilização da sociedade brasileira para o respeito às diferenças, que caracterizam cada um dos grupos sociais inseridos na campanha, reafirmando a igualdade de direitos.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados pela campanha “Igual a Você”, uma das facetas do racismo revela-se na remuneração média da população brasileira: homens brancos (R$ 1,2 mil), mulheres brancas (R$ 700), homens negros (R$ 600) e mulheres negras (R$ 400). Mais informações sobre a campanha da ONU podem ser obtidas no www.onu-brasil. org.br ou http://www.youtube. com/user/ UNAIDSBr
LEI DE COTAS – Na última quarta-feira (18), o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro declarou constitucional a Lei 5.346/08, que institui o sistema de cotas para ingresso nas universidades estaduais. Por maioria de 20 votos, os magistrados acompanharam a posição do desembargador Sérgio Cavalieri, relator da ação direta de inconstitucionalidade, para o qual a norma aprovada pela Assembléia Legislativa não fere o princípio da igualdade.
A lei, que entrou em vigor em dezembro do ano passado, beneficia, no estado do Rio de Janeiro, estudantes carentes negros, indígenas, alunos da rede pública de ensino, portadores de deficiência física, além de filhos de policiais civis e militares, bombeiros militares e inspetores de segurança e administração penitenciária, mortos ou incapacitados em razão do serviço.
De acordo com Sérgio Cavalieri, a “igualdade só pode ser verificada entre pessoas que se encontram em situação semelhante”. E acrescentou: “Há grupos minoritários e hipossuficientes que precisam de tratamento especial. Se assim não for, o princípio da isonomia vai ser uma fantasia”.